Padre Júlio Lancellotti faz apelo por luta contra a pobreza

REDAÇÃO – “Não devemos baixar a guarda diante da pobreza”. O apelo foi feito pelo padre Júlio Lancellotti, vigário da Pastoral do Povo da Rua em São Paulo (SP), na abertura da etapa final do Fórum Técnico Minas sem Miséria, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta quarta-feira (4/3/26).
O Parlamento mineiro realiza o evento em conjunto com entidades parceiras da sociedade civil e do poder público, atendendo a requerimento da presidenta da Comissão de Direitos Humanos, deputada Bella Gonçalves (Psol). As atividades seguem até o dia 6 de março, com grupos de trabalho e plenária final.
Lancellotti falou sobre cultivar uma “esperança teimosa” mesmo diante das perseguições ou da resistência das elites que insistem na manutenção da desigualdade social. O padre já foi vítima, reiteradamente, de retaliações de agentes políticos devido ao seu trabalho juntamente a abrigos e cozinhas comunitárias na capital paulista.
Padre Júlio disse que a convocação sobre não baixar a guarda diante da pobreza está na “Exortação Apostólica Dilexi Te, do Santo Padre Leão XIV, sobre o amor para com os pobres.” Segundo ele, o Papa Leão XIV ensina que o amor aos pobres deve ser vivido com ações concretas. E deu como exemplos fomentar os restaurantes populares e demais equipamentos destinados à população em situação de rua ou àquela que vive em extrema vulnerabilidade.
Ele defendeu ainda a misericórdia como categoria política. “Precisamos sair da lógica neoliberal em prol da lógica da misericórdia”, declarou. Para Lancellotti, o capitalismo está também na maneira de pensar. “Deixo aqui um convite para pensar fora desse sistema. Vamos ser desobedientes de uma ordem injusta”, acrescentou.
Para o padre Júlio Lancellotti, “a miséria não é um fato que surge de repente, mas se faz na história”. Ele disse que a escassez de alimentos e água potável e a falta de acesso à moradia decorrem dos sistemas político e econômico forjados ao longo de anos: “A luta que agrega todas as demais é a luta contra a desigualdade social”.
Padre Júlio defendeu a “esperança teimosa” diante das perseguições e da resistência das elites Álbum de fotosFoto: Daniel Protzner
Parlamentares fazem críticas ao desvio de recursos do Fundo de Erradicação da Miséria
A deputada Bella Gonçalves lembrou a trajetória do Fórum Técnico Minas sem Miséria e das demais medidas de iniciativa da ALMG para construir as políticas públicas de combate à pobreza no Estado. “Nós cumprimos nosso dever, mas o governo estadual não”, lamentou a parlamentar.
Ela explicou que a Lei 19.990, de 2011, que criou o Fundo de Erradicação da Miséria (FEM), é resultado direto do Seminário Legislativo Pobreza e Desigualdade, promovido pelo Parlamento Mineiro naquele ano. Contudo, segundo a deputada, os recursos do fundo são sistematicamente desviados da sua finalidade.
Além de não aplicar o montante do FEM integralmente nas políticas públicas da área, o Plano Mineiro de Combate à Miséria, previsto na norma já mencionada, não foi sequer criado. “O objetivo nosso aqui é justamente envolver a sociedade na elaboração deste plano”, ressaltou a deputada.
Ela enfatizou que foram ouvidas cerca de 2 mil pessoas nos encontros regionais do Fórum em 2025, nas cidades de Juiz de Fora, Montes Claros, Araçuaí, Uberlândia e Betim, e foram coletadas 300 propostas que darão origem ao plano. “Queremos renda básica universal nos moldes em que foi apresentada pelo deputado estadual Eduardo Suplicy (PT-SP)”, pontuou Bella. Suplicy participou da abertura do Fórum, no ano passado.
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“A fome tem raça e gênero”
A vice-presidenta da ALMG, deputada Leninha (PT), ressaltou que “a fome tem raça e gênero”. Ela explicou que a miséria possui muitas faces e que a população negra, sobretudo as mulheres, são mais as mais atingidas. A parlamentar lembrou ainda que a reforma agrária e o acesso à saúde e à educação devem ser contemplados nas políticas públicas destinadas ao combate à pobreza.
Leninha fez a leitura de mensagem do presidente da Assembleia, Tadeu Leite (MDB). O texto destacou a tradição do Parlamento mineiro em promover o diálogo com a população e a sociedade civil a fim de criar e aperfeiçoar as políticas de Estado.
“É nosso compromisso moral não aceitar a pobreza como fato natural” registrou o presidente. Para ele, os mais de 3 milhões de mineiros que vivem em situação pobreza não podem ser vistos apenas como estatísticas.
Os demais parlamentares presentes na abertura da etapa final, nesta quarta, Ana Paula Siqueira (Rede), Andreia de Jesus, Beatriz Cerqueira, Leleco Pimentel e Ricardo Campos (estes quatro do PT), também cobraram a aplicação integral dos recursos do FEM nas ações e programas de combate à miséria.
De acordo com dados do Cadastro Único (CadÚnico) de maio de 2025, 3,4 milhões de mineiros estão em situação de pobreza. Destes, 764 mil vivem em pobreza crônica, situação em que um indivíduo ou família permanece nessa condição por um longo período, frequentemente por várias gerações, enfrentando privações persistentes de recursos, capacidades e oportunidades.
Outro recorte importante da miséria em Minas diz respeito à população em situação de rua. A capital mineira tem seis pessoas em situação de rua para cada mil habitantes, segundo dados do CadÚnico de março de 2025.
