quinta-feira, outubro 15, 2026
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EDITORIAL JBN | O “fundão” que financia mandatos e dificulta a renovação da política

EDITORIAL – O dinheiro público destinado às campanhas eleitorais deveria servir para ampliar a democracia e garantir condições minimamente equilibradas de disputa. Mas, quando se observa a distribuição do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) entre os candidatos do PT a deputado federal em Minas Gerais, fica uma pergunta incômoda: o fundão está financiando a democracia ou ajudando a preservar quem já está no poder?

A questão é inevitável

Na lista divulgada pelo partido, os candidatos que disputam a reeleição aparecem no topo da distribuição, com R$ 1,8 milhão para cada um. São parlamentares que já possuem mandato, visibilidade, estrutura política e uma rede de relações construída ao longo de anos.

Enquanto isso, quem pretende chegar pela primeira vez à Câmara dos Deputados encontra uma realidade completamente diferente.

É o caso das candidaturas classificadas nos grupos G2, G3 e, principalmente, G4. Neste último grupo, estão 11 candidatos, entre eles o timotense Alair Dimas. Para eles, a verba do Fundão é simplesmente zero.

Zero

A diferença não é apenas financeira. É uma diferença de condições de disputa.

Quem recebe R$ 1,8 milhão pode contratar estrutura, produzir material, ampliar sua presença na campanha, viajar, organizar eventos e alcançar um número muito maior de eleitores. Quem recebe algumas centenas de milhares de reais já enfrenta limitações consideráveis. E quem não recebe nada do fundo precisa encontrar outras formas, dentro da legislação eleitoral, de tornar seu nome conhecido.

É difícil falar em renovação política quando a largada não é igual.

Quem já está dentro larga na frente

Não se trata de defender que todo candidato tenha direito ao mesmo volume de dinheiro. Partidos precisam estabelecer critérios de prioridade e distribuir seus recursos conforme suas estratégias eleitorais. O problema é outro.

Se os recursos públicos são concentrados justamente nas candidaturas que já possuem mandato e maior estrutura política, como esperar que novos nomes tenham condições de competir em igualdade?

A política brasileira já possui uma tendência natural à concentração de poder. Quem ocupa mandato ganha exposição, estrutura, influência e capacidade de articulação. Na eleição seguinte, volta a disputar com essas vantagens acumuladas.

Quando entram em cena bilhões de reais do Fundo Eleitoral, essa desigualdade pode ser ampliada.

E aí surge o paradoxo: o dinheiro público que deveria fortalecer a democracia pode acabar fortalecendo aqueles que já possuem poder político.

Não estamos dizendo que todos os parlamentares que recebem recursos estão agindo de maneira irregular. Muito menos que uma candidatura com maior verba necessariamente será eleita. A questão é estrutural.

Quanto mais recursos são concentrados nas candidaturas já consolidadas, mais difícil fica para o eleitor conhecer, avaliar e escolher novos nomes.

Onde está a renovação?

Uma democracia saudável precisa permitir que novas lideranças apareçam.

Precisa permitir que um cidadão que nunca exerceu mandato possa apresentar suas ideias, disputar votos e, se convencer o eleitorado, ocupar uma cadeira no Congresso Nacional.

Se o sistema eleitoral cria barreiras financeiras e partidárias tão grandes para quem está chegando, a renovação passa a ser muito mais difícil.

E não podemos confundir renovação eleitoral com simples troca de cadeiras entre políticos profissionais.

Renovar não é apenas um deputado deixar de ser candidato para outro parlamentar ocupar seu lugar. Renovação verdadeira significa abrir espaço para novas ideias, novas lideranças e pessoas que nunca tiveram oportunidade de exercer mandato.

O caso da distribuição do fundo eleitoral em Minas Gerais deveria servir justamente para esse debate.

O eleitor precisa saber

Também é legítimo perguntar quais critérios foram utilizados para colocar determinadas candidaturas no topo da lista e outras nas faixas inferiores.

Se existem critérios objetivos, eles precisam ser conhecidos.

Se o desempenho eleitoral anterior é um dos parâmetros, que isso seja explicitado. Se são considerados pesquisas, estrutura partidária, potencial eleitoral ou outros fatores, que sejam apresentados de forma transparente.

Dinheiro público exige transparência pública.

O eleitor não pode ser chamado apenas para votar. Ele também tem o direito de saber como os partidos estão utilizando os recursos públicos destinados às campanhas.

O caso do timotense Alair Dimas

A situação do timotense Alair Dimas chama atenção por representar exatamente o perfil de candidatura que busca romper com a lógica da política tradicional: um nome sem mandato federal, que pretende conquistar espaço na Câmara dos Deputados por meio do voto popular. Classificado no grupo G4, porém, ele não terá acesso aos recursos do Fundo Eleitoral destinados às demais faixas de candidaturas.

Na prática, terá de disputar uma eleição de dimensão estadual e nacional sem a estrutura financeira oferecida aos candidatos que já ocupam uma cadeira no Congresso. Enquanto alguns largam a corrida eleitoral com milhões de reais em recursos públicos, quem está tentando entrar precisa fazer campanha com recursos próprios e com uma estrutura muito mais limitada.

O risco é que candidaturas como a de Alair Dimas acabem sendo empurradas para uma posição secundária dentro do próprio partido, servindo muito mais como “cabo eleitoral de luxo” para as candidaturas majoritárias e para candidatos a senador e deputado estadual do que como uma candidatura efetivamente estimulada a disputar uma vaga na Câmara.

E aqui está o ponto que merece reflexão: se um candidato a deputado federal não recebe sequer um centavo do Fundo Eleitoral, enquanto candidatos que já possuem mandato recebem R$ 1,8 milhão, que tipo de renovação política o sistema está realmente estimulando?

A discussão, portanto, não é apenas sobre Alair Dimas. É sobre o espaço reservado aos novos nomes na política e sobre a necessidade de garantir que o dinheiro público utilizado nas eleições não se transforme em instrumento de manutenção dos mesmos grupos e mandatos.

Uma democracia verdadeiramente aberta precisa permitir que quem está chegando também tenha condições de ser ouvido. Afinal, não existe renovação política quando os novos candidatos são convidados apenas para participar da eleição, mas não recebem as condições necessárias para disputar de fato.

O fundão precisa ser discutido

O Brasil destinou R$ 4,96 bilhões ao Fundo Eleitoral de 2026.

É dinheiro público.

São bilhões de reais que poderiam ser vistos como investimento na democracia, mas que precisam ser acompanhados com rigor pela sociedade.

A pergunta que fica é simples e incômoda: o Fundão está servindo para democratizar a disputa ou para proteger quem já está no poder?

Se a maior parte dos recursos fica concentrada nas candidaturas com mandato, enquanto novos candidatos recebem pouco ou nada, a sociedade tem todo o direito de questionar se esse modelo realmente favorece a renovação.

Porque democracia não pode significar apenas garantir que os mesmos políticos tenham dinheiro para disputar novamente.

Democracia também é permitir que novos nomes tenham a oportunidade de chegar.

E, se o sistema continuar oferecendo muito mais recursos para quem já está dentro do que para quem tenta entrar, a tão falada renovação política poderá continuar sendo apenas uma promessa de campanha.

 

 

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