quinta-feira, fevereiro 29, 2024
DestaquesSaúde

Autismo: menos política, mais empatia com essa causa

O psicólogo e ativista do autismo, Daniel do Bem

ARTIGO – Desde que Aristóteles afirmou que o homem é um “animal político”, passamos a entender melhor como nos relacionamos na vida privada e pública. O filósofo grego nos mostrou que as ações humanas são movidas por interesses que se conflitam o tempo todo. A política seria, portanto, uma habilidade humana para dialogar, negociar e acomodar tais interesses divergentes. Ou seja, sem essa faculdade própria da nossa espécie, viveríamos em estado de guerra permanente.

Infelizmente, o termo “política” é entendido no mundo contemporâneo como “disputa pelo poder” ou “jogo de poder”. Nesse caso, entram em cena nossas piores características, tais como: o egoísmo, a ganância, a mentira, a dissimulação e o ódio. A política como qualidade de quem é um “bom jogador” seria a razão do sucesso dos governantes, dos empresários e até dos participantes dos reality shows como o Big Brother Brasil.

Nessa altura da História será muito difícil mudar o sentido popular do termo. No entanto, a política institucional vai continuar sendo o espaço para que os setores excluídos, as pessoas marginalizadas conquistem reconhecimento e cidadania. Quem mais depende da política não são os ricos e poderosos, mas grupos como o movimento das pessoas autistas e das pessoas com deficiência em geral.

Nossas pautas não são muito bem acolhidas pela classe política. Do mesmo modo, nossos pouquíssimos representantes nas câmaras municipais, nas assembleias estaduais e no Congresso Nacional também não são vistos como grandes políticos. Nos olham como minorias briguentas que buscam migalhas do Estado. Pensam que nossa a causa se limita a obter uns poucos benefícios governamentais para nossos públicos.

A luta pela emancipação da pessoa com deficiência vai muito além da conquista de políticas públicas específicas para esse segmento social que representa cerca de 25% da nossa sociedade segundo o IBGE. Entendemos que incluir uma pessoa neurotípica, sindrome de down, deficiente físico, intelectual ou mental tem um significado duplamente relevante para o nosso tempo.

Primeiro, representa efetivação plena da democracia, pois não podemos falar em regime democrático se no país pelo menos 45 milhões de pessoas ainda convivem diariamente com o preconceito e a segregação. Em segundo lugar, ressaltamos que o efeito dessa inclusão é altamente positivo. Pesquisas científicas comprovam que a presença de PCDs no setor do trabalho, nas escolas ou nos esportes melhoram vários aspectos do comportamento individual e coletivo. Também torna os ambientes mais solidários, além de elevar o aprendizado formal dos grupos envolvidos no processo de inclusão.

Está comprovado aquilo que nós sempre soubemos. Nossa causa aumenta significativamente a empatia nas pessoas. Fazemos, antes de qualquer coisa, algo que podemos chamar de “empolítica”. Praticamos política com muita empatia. Colocamos os seres humanos ditos “normais” no lugar dos diferentes. Uma vivência extraordinária e única de experimentar a dor e a delícia de estar na pele de alguém. Quem convive com um PCD nunca será a mesma pessoa. O impacto é transformador.

Por isso, nosso slogan é Menos Política, Mais Empatia. Não se trata de negar Aristóteles na sua clarividência de compreender a predisposição da natureza humana para a construção do consenso para a vida social funcionar. Muito menos queremos eliminar a política partidária, uma vez que se constitui no caminho legítimo para se chegar ao poder numa democracia. Essas duas dimensões vão continuar existindo porque a solidez do tecido social depende do diálogo social e dos poderes constituídos.

Entretanto, no momento que nos encontramos de intensa polarização e disseminação do ódio, o movimento da pessoa com deficiência tem algo muito especial a oferecer: nossa forma ser e ver o mundo que nos rodeia. A empatia é a base da felicidade. Cura todos os males. Como diria o poeta: “é impossível ser feliz sozinho”. Como vamos buscar o consenso e o bem comum se estamos infelizes? Pessoas tristes desejam coisas ruins. Com o coração repleto de felicidade, você só expressa amor, alegria e felicidade. Coloquemos mais empatia em nossos atos.

Jamais iniciemos uma batalha social ou eleitoral pelo o amor à política, amor ao poder em si mesmo. Se temos que lutar e competir pelo poder, então que sejamos motivados pelo “amor ao próximo”, o único sentimento que verdadeiramente nos salva, nos redime e nos faz plenamente felizes.

 

 

Compartilhe em suas redes sociais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *