ASSÉDIO NÃO É BRINCADEIRA: “Quem Ama Cuida” transforma denúncia contra Ademir em condenação e dá recado à sociedade
Ao transformar a denúncia contra um homem poderoso em julgamento e condenação, a novela “Quem Ama Cuida” coloca o assédio sexual no centro do debate e transmite uma mensagem que vai muito além da ficção.
OPINIÃO – Há uma semana, acompanho Quem Ama Cuida, da Rede Globo, à espera do desfecho do julgamento de um personagem acusado de assédio sexual contra mulheres. Mais do que acompanhar uma trama de novela, passei a acompanhar uma discussão que ultrapassa a ficção e alcança uma realidade que ainda exige coragem para ser enfrentada. Ao levar o assédio sexual para o centro de uma de suas principais histórias, a televisão brasileira faz mais do que entreter: provoca, incomoda, desperta reflexão e coloca diante de milhões de pessoas uma questão que não pode ser silenciada nem tratada como algo banal.
A história de Ademir Santana chama atenção justamente por não apresentar o assédio como uma simples “cantada”, uma brincadeira ou um comportamento que possa ser tolerado em razão da posição social ou profissional de quem o pratica. A trama expõe denúncias, conflitos, consequências, o enfrentamento familiar e a busca por Justiça, colocando em discussão uma realidade que, fora da ficção, ainda faz parte da vida de muitas mulheres.
É uma escolha importante da Rede Globo.
Durante muito tempo, situações envolvendo homens em posições de poder foram relativizadas ou simplesmente silenciadas. Muitas mulheres, por medo de perder o emprego, sofrer retaliações, prejudicar a própria carreira ou não serem acreditadas, acabaram carregando sozinhas o peso de situações que jamais deveriam ter sido normalizadas.
A novela toca justamente nesse ponto: quando uma mulher decide denunciar, sua palavra precisa ser ouvida, respeitada e apurada pelas instituições competentes.
O poder não pode estar acima da Justiça
Um dos aspectos mais fortes da história é o fato de Ademir ser um homem influente, respeitado profissionalmente e com conhecimento jurídico. Ainda assim, a trama coloca em evidência uma questão fundamental: prestígio, dinheiro, profissão, influência ou relações pessoais não deveriam funcionar como escudo diante de uma acusação grave.
Mais emblemático ainda é o papel desempenhado por Pedro, filho de Ademir, que se posiciona ao lado das vítimas e participa do processo contra o próprio pai.
É um conflito dramático poderoso porque coloca diante do público uma pergunta difícil: até onde deve ir a lealdade familiar quando existe uma acusação grave envolvendo alguém próximo?
A resposta apresentada pela novela é igualmente contundente: vínculos familiares não podem apagar a busca pela verdade, pela Justiça e pelo respeito à dignidade das vítimas.
Uma mensagem para quem assedia — e para quem sofre
A condenação de Ademir produz, dentro da narrativa, um efeito simbólico importante.
A mensagem é simples e direta: assédio sexual não é normal, não é brincadeira e não deve ser naturalizado.
Quem ocupa uma posição de chefia não tem o direito de constranger uma funcionária. Quem possui poder econômico não pode imaginar que dinheiro resolve tudo. E quem acredita que sua posição social o coloca acima das regras precisa compreender que existem limites que não podem ser ultrapassados.
Ao mesmo tempo, a trama transmite outra mensagem importante às mulheres: romper o silêncio e denunciar pode ser o primeiro passo para interromper um ciclo de violência e constrangimento.
É evidente que uma novela não substitui a Justiça, a polícia, o Ministério Público ou as políticas públicas de proteção às mulheres. Mas a televisão possui uma capacidade extraordinária de levar determinados assuntos para dentro de milhões de lares.
E quando faz isso com responsabilidade, pode contribuir para ampliar o debate, questionar comportamentos naturalizados e estimular mudanças de mentalidade.
Mais do que uma novela
É justamente por isso que a abordagem de Quem Ama Cuida merece atenção.
Não se trata de transformar uma obra de ficção em tribunal da sociedade. Trata-se de reconhecer a força que a televisão possui para provocar reflexão sobre problemas que existem fora da tela e que, muitas vezes, permanecem escondidos atrás do silêncio.
Ao acompanhar a trajetória de Ademir, o público não vê apenas um personagem diante de uma acusação. Vê vítimas buscando Justiça, uma família dividida, um filho confrontando o próprio pai e uma sociedade sendo provocada a discutir os limites entre poder, respeito e dignidade.
Esse também pode ser o papel social de uma grande produção televisiva: entreter, mas também provocar. Contar uma história, mas também fazer perguntas.
Que outras histórias tenham a mesma coragem para abordar temas difíceis. Que a ficção continue abrindo espaço para debates que, muitas vezes, são evitados na vida real.
Porque, no fim das contas, a mensagem que fica é maior do que a própria história de Ademir Santana: nenhuma mulher deve ser obrigada a suportar o assédio em silêncio — e nenhum homem deve acreditar que seu poder, seu dinheiro ou sua posição o tornam intocável.
Por Paulo César dos Reis — Jornalista

