Entre a pressa e o risco: a dura realidade dos motoboys que mantêm a cidade em movimento

TIMÓTEO – Eles enfrentam sol escaldante, chuva, trânsito intenso e o risco constante de acidentes para garantir que refeições, medicamentos, documentos e encomendas cheguem ao destino no menor tempo possível. Invisíveis para muitos, os motoboys e entregadores por aplicativo carregam nas costas muito mais do que mochilas térmicas: sustentam suas famílias e convivem diariamente com uma rotina marcada pela insegurança, pela falta de reconhecimento e pela ausência de condições mínimas de trabalho.
A remuneração, embora possa parecer atrativa em alguns dias, está longe de representar lucro. Segundo entregadores ouvidos pela reportagem, quando a “mamãe” — como eles se referem à rua, em dias de grande movimento — está boa, é possível faturar cerca de R$ 180 por dia. Mas desse valor é preciso descontar praticamente tudo.
Combustível, troca de óleo, pneus, freios, manutenção preventiva, seguro, documentação da motocicleta e, em muitos casos, as prestações do próprio veículo consomem boa parte da renda. O que sobra ainda precisa pagar aluguel, alimentação, contas de água, luz, internet e todas as despesas da casa.
“O dinheiro entra, mas sai na mesma velocidade. A gente trabalha o dia inteiro para conseguir fechar as contas no fim do mês”, resume um dos profissionais entrevistados.
Um acidente muda tudo
O maior medo da categoria não é apenas o trânsito. É deixar de trabalhar.
Diferentemente de trabalhadores com vínculo empregatício, muitos entregadores autônomos não possuem renda garantida caso sofram um acidente. Uma queda, uma fratura ou qualquer afastamento representa o fim da única fonte de sustento da família.
“O motoboy, quando machuca, deixa de ser provedor da casa para virar custo”, relata um dos profissionais.
Sem trabalhar, não há entregas. Sem entregas, não há renda. Enquanto isso, as prestações da moto continuam chegando, assim como as despesas da família.
Falta o básico: respeito
Além dos desafios financeiros e dos riscos diários, os motoboys afirmam conviver com situações que consideram desumanas.
Uma das reclamações mais frequentes é a dificuldade para utilizar um banheiro durante a jornada de trabalho. Em muitos estabelecimentos comerciais e residências onde realizam entregas, o acesso é negado.
“Banheiro é só para clientes”, contam ouvir com frequência.
A situação se repete quando precisam beber água. Em diversos locais, não recebem sequer um copo de água filtrada, sendo orientados a utilizar água da torneira — quando isso é permitido.
Pequenos gestos de respeito, segundo eles, fariam grande diferença em uma rotina que pode ultrapassar dez horas diárias sobre a motocicleta.
Uma profissão essencial
A pandemia evidenciou a importância dos serviços de entrega. Enquanto grande parte da população permanecia em casa, os motoboys continuaram nas ruas garantindo o abastecimento de famílias, empresas, farmácias e restaurantes.
Mesmo após o período crítico, a demanda permaneceu elevada. Hoje, eles são parte indispensável da economia urbana, mas afirmam que o reconhecimento não acompanhou a importância da atividade.
Os entregadores defendem maior conscientização da população e dos estabelecimentos comerciais, além da criação de espaços de apoio que ofereçam banheiro, água potável e um local seguro para uma breve parada durante a jornada.
Para quem vive do guidão, respeito também faz parte da entrega.
Vozes da categoria
A pauta desta reportagem foi sugerida pelos entregadores João Paulo, Marcos Silva, Gilberto Geraldo, Amarilha Felix e Roniara Santana, que decidiram compartilhar a realidade vivida diariamente por centenas de profissionais que percorrem as ruas do Vale do Aço em busca do sustento de suas famílias.
Mais do que entregar pedidos, eles entregam tempo, disposição e coragem. Em troca, pedem apenas aquilo que deveria ser básico: condições dignas de trabalho, respeito e reconhecimento por uma profissão que não pode parar.
