NO 6º ANO SEM PADRE ABDALA, A LEMBRANÇA, “EU JÁ NASCI PADRE!”

Margarida Drumond de Assis

 Chega-nos novamente o dia 30 de julho, data em que vimos partir de nosso convívio o querido e já muito saudoso Pe. Abdala Jorge. E, hoje, quando se completam seis anos de sua ausência, alegra-me registrar que, no próximo dia 15 de agosto, Festa da Assunção de Nossa Senhora, teremos na Paróquia São José de Acesita, em Timóteo, o lançamento de Eu já nasci padre!”, livro que, pela graça de Deus em mim, pude escrever.

Eu já nasci padre! é uma expressão que Pe. Abdala mesmo  proclamava em situações diversas, a começar nas próprias homilias ou em alguma entrevista concedida a crianças de catequese ou a jornalistas. É que, ainda muito criança, ele seguiu para o Seminário de Mariana, para dar cumprimento à vocação com a qual nascera, conforme prometera sua mãe dona Rosa, pedindo que Deus lhe desse um filho homem, ela já mãe de três meninas. Ainda tinha sete anos de idade quando, antes de ir para a escola, ajudava os padres na primeira missa do dia, na Igreja Nossa Senhora do Pilar, em sua São João Del Rei, dedicado coroinha que era.

 

Preciso mesmo dizer que foi um prazer inenarrável o que senti ao longo da pesquisa, muitas vezes anotando enorme quantidade de depoimentos que mostravam quanto Pe. Abdala era pessoa caridosa e de acolhimento. Marcante também a veemência com que ele defendia as pessoas contra as injustiças, fossem no trabalho na usina; no campo; ou a atividade das lavadeiras que eram mal remuneradas, exploradas mesmo por famílias de posses. A tudo ele estava atento e alertava, orientando sempre. “A pessoa tem que viver com um mínimo de dignidade”, defendia.

Assim, Pe. Abdala não pensava duas vezes se visse necessidade de subir em um palanque para defender a causa dos trabalhadores; não media sacrifício para cumprir com seus trabalhos pastorais indo de um a outro distante ponto da Paróquia São José de Acesita para celebrações eucarísticas; para ministrar sacramentos; ou para celebrar datas importantes de aniversário de vida ou de casamento, junto às famílias;  Pe. Abdala tinha disposição para fazer a pé o percurso de ida e volta a Ipatinga, se o objetivo fosse um oferecimento pela paz entre os homens que chegavam na região e não encontravam trabalho, passando a uma vida agitada e de brigas; ele não se incomodava de agir, como o fez quando do Massacre de 7 de outubro de 1963, posicionando-se contra a truculência dos militares.

Ao proclamar esse “Eu já nasci padre!”, o nosso Abdala Jorge agia como se dissesse ao que o procurava e àqueles que com ele conviviam: podem contar comigo, eu posso ajudar. A comida na mesa estava sempre à disposição de quem chegasse; o remédio na sua farmacinha era para todos e, se estivesse em falta, autorizava que se pegasse no comércio local; uma passagem de ônibus nas linhas circulares ou intermunicipais não seria problema se a pessoa precisasse: com ele sempre havia um jeito. Se não podia resolver, encaminhava para os vicentinos em quem ele tanto confiava.

Você está se lembrando da pressa dele nos casamentos e batizados que fazia? Tem razão, pois realmente o tempo dele era muito corrido, muitas vezes sozinho para dar conta de tudo. O tempo para cada casamento normalmente era de trinta minutos e, se a pessoa atrasasse, ia perdendo os minutos a que teria direito. Como não ser assim, se havia outro logo em seguida, às vezes dez, até doze casamentos num mesmo dia? E não são poucos os casos engraçados envolvendo noivos e convidados. Compromisso era coisa séria para ele: podia Pe. Abdala estar distante, mas se houvesse marcado hora, lá ele estaria no exato momento, pontual, cumpridor de seus deveres. Um verdadeiro missionário itinerante, inquieto, mas muito atento. Como disse Dom José Belvino do Nascimento, hoje bispo emérito de Divinópolis, e que no início de Pe. Abdala pároco ajudou-o na Paróquia, “Pe. Abdala era sacerdote zeloso, irrequieto, incansável! Dava a vida, de dia e de noite, pela paróquia e pelo seu povo. …”

E para homenageá-lo ainda neste dia quando dele nos lembramos com saudades tantas, a palavra da amiga Zenólia, de Timóteo, professora e catequista, para quem, “pensar no Padre Abdala é ser pessoa ecumênica. É não ter consigo nenhuma marca de católico. É viver bem misturada com todas as criaturas. É levar o Cristo bem escondido no coração, e, então, falar, agir, compreender, ajudar e amar…”, tudo atestando quanto ele foi semente, e semente que vingou e deu frutos, em seus 59 anos de vida em nosso meio, testemunhando a simplicidade, o despojamento e o serviço de Maria e o amor salvífico do Cristo.

                                               

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